As palavras
não são neutras e têm muita força. Carregam símbolos, ideologias, histórias.
Mesmo com o uso abolido em 1990, com a criação do Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA), o termo “menor” ainda é
frequentemente usado para classificar as crianças e os adolescentes no Brasil,
mas não todos. Aplicado como dispositivo de controle e coerção, o menorismo é
herança do Código de Menores de 1927 (reeditado em 1979), que incide suas
normas para uma única classe social. Nesse caso, então, fica a pergunta: quem é
o menor?
“Ninguém
chama os filhos das elites econômicas de ‘menor’”, afirma o advogado e analista
de políticas sociais, Renato Roseno. “Usar a palavra ‘menor’ é chancelar
desigualdades sociais e políticas. Pior do que isso esconde a negação de
direitos, a exploração e a opressão a que são submetidas às crianças e os
adolescentes no Brasil.”
Tido como
ideologia, o menorismo tem sua origem na virada do século 19 para o século 20,
direcionada para os filhos e filhas das camadas populares - sobretudo, nas
áreas urbanas que estavam em consolidação naquele período. Para Roseno, há uma
questão cultural que permanece sobre o uso do termo, um paradigma social criado
há mais de um século. “Infelizmente, o menorismo persiste nas estruturas
institucionais e sociais. Não se altera uma cultura pela edição de uma norma. A
aprovação do ECA foi
um passo importante. Contudo, enquanto persistir a ideia de que o filho do
pedreiro é ‘menor’ e o filho do empresário é criança, o menorismo existirá – e,
com ele, toda sorte de injustiças, autoritarismos, estigmas e violações.”
Sistema
“discriminatório e perverso”
Inapropriado
e pejorativo. Essa é a definição da Andi Comunicação e Direitos para o termo “menor”, que
ainda define a doutrina do menorismo como um sistema “discriminatório e
perverso”. “De modo resumido, qualquer criança que fosse encontrada nas ruas,
desacompanhada de um adulto, poderia ser recolhida às unidades do Juizado de
Menores”, explica a gerente de qualificação da Andi, Suzana Varjão.
“Tratava-se, na verdade, de um dispositivo de dominação de uma classe social em
relação à outra. Dispositivo que continua a, no mínimo, ser legitimado enquanto
se insiste em usar tal conceito”.
Nesse
sentido, Suzana faz uma analogia ao conto de ficção científica Minority
Report, escrito em 1956 por Philip K. Dick e adaptado por Steven Spielberg
para o cinema em 2002. Na história, o sistema funcionava, na prática, como uma
espécie de unidade pré-crime, em que um oráculo (no caso, o juiz de menores),
prevendo que aquela criança poderia cometer algum delito ou infração, a
encarcerava, para evitar o crime. “Essas crianças eram sempre as menos
favorecidas em termos socioeconômicos e etnorraciais. Pela aparência, pela
pobreza, pela vulnerabilidade, eram vitimizadas, ou revitimizadas, o que é
tecnicamente inconstitucional e eticamente desumano”, compara.
Por trás da
ideia de proteger a criança da sociedade está a lógica de proteger a sociedade
da criança, “ou seja, tratar essas crianças como potenciais perigos à
sociedade”, resume Roseno.
“Reprodução
perigosa”
De acordo
com Roseno, todos assimilamos e interagimos com nossa sociedade ao redor e, se
alguém é tratado de forma excludente e desigual, acaba reproduzindo o
mesmo tratamento, resguardados sua singularidade e história pessoal. “Criamos,
assim, mais e mais gerações na lógica da exclusão e da desigualdade. Dessa
forma, uma sociedade em que ‘uns mandam e outros obedecem’ vai se perpetuando.
Não somos educados para a lógica da igualdade de direitos e dignidade.”
Para a
gerente de qualificação da Andi, tal reprodução é perigosa quando os meios de
comunicação de massa insistem em chamar crianças e adolescentes de “menores”.
“O termo ‘menor’ é um exemplo de expressão que o exercício socialmente
responsável do jornalismo deveria definitivamente abdicar”, ressalta Suzana.
“Trata-se não apenas de uma reprodução ou vocabulário que reflete a realidade a
ele associada, mas que ajuda a produzi-la ou perpetuá-la”, garante.
A ideia
destacada pelos dois especialistas é a de existe um "tipo perigoso
ideal", com rosto e personalidade, ou, como define Renato Roseno, “uma
nova ‘classe perigosa’, no caso, os adolescentes negros e pobres das periferias
urbanas”. Para o advogado, o uso frequente e irresponsável do termo também
serve como perpetuação da violência contra crianças e adolescentes. “A
imprensa, em especial os programas policiais, sem qualquer restrição,
utilizam-se de concessões públicas para fazer exortação de violência, dor e
segregação contra nossos adolescentes”, assegura.
Como
desafios, estão os aprimoramentos da formação de operadores que atuam no Sistema de
Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente e também a
autonomia e a organização de grupos sociais, comunidades, crianças,
adolescentes e jovens, além da “imprescindível luta pelo direito humano à
comunicação e ao controle democrático sobre os monopólios da comunicação”, como
aponta Roseno. “Não avançaremos democraticamente se as opiniões e ideias que
circulam na sociedade sejam exclusivas de grandes grupos econômicos que
controlam a comunicação no Brasil.”
Do Promenino
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