Por;Rosana Heemann
Olha, vamos
falar o que é: você nunca viu uma criança rica trabalhando. Nem conhece
ninguém que virou príncipe quebrando pedra ou cortando cana.
As crianças
ricas que vemos na mídia são filhas de pessoas famosas, em fartas festas de
aniversário, com roupas caras, dando e recebendo presentes de grande valor.
Nenhuma delas está envolvida com trabalho infantil.
O trabalho
infantil, como se sabe, é uma chaga que acomete crianças de famílias de baixa
renda. São famílias que vivem mal, comem mal, não têm recursos de saneamento
básico, nem acesso à educação, informação, saúde, nada.
Essas
famílias, muitas vezes numerosas, veem em cada filho uma possibilidade de
complementar a renda e, assim, crianças e adolescentes acabam tendo que
trabalhar, encaminhadas pelos próprios pais.
A história triste poderia terminar aqui, com a criança trabalhando e ganhando um ‘dinheirinho’ e a gente esquecendo o assunto. Pra aliviar a culpa, a sociedade ainda inventa que ‘o trabalho enobrece’, como se uma criança mirrada, morando em condições miseráveis, trabalhando desde cedo fosse virar um príncipe por ser explorada como trabalhador.
A história triste poderia terminar aqui, com a criança trabalhando e ganhando um ‘dinheirinho’ e a gente esquecendo o assunto. Pra aliviar a culpa, a sociedade ainda inventa que ‘o trabalho enobrece’, como se uma criança mirrada, morando em condições miseráveis, trabalhando desde cedo fosse virar um príncipe por ser explorada como trabalhador.
Aham, senta lá
Cláudia, faz de conta que a gente acredita.
É ÓBVIO que a
história não tem final feliz e ainda piora, em pelo menos três grandes
aspectos:
— primeiro que
as crianças e adolescentes que trabalham quase sempre apresentam problemas
sérios de saúde, que vão de fadiga excessiva a problemas respiratórios. Muitas
vezes os trabalhos que exigem esforço físico extremo podem prejudicar o
crescimento, produzir fraturas, amputações, queimaduras e até causar
deformidades. Dados coletados pelo Ministério da Saúde, entre 2009 e julho de
2011, mostram que crianças e adolescentes se acidentam seis vezes mais que
adultos em atividades laborais. Sem contar as crianças que morrem por causa do
trabalho.
— o segundo
fator é o impacto psicológico, que pode afetar a capacidade de aprender, de se
relacionar. E ainda há a ocorrência de abusos físicos e emocionais que muitas
crianças e adolescentes sofrem em trabalhos como tráfico e exploração sexual,
considerados como as piores formas de trabalho infantil, que podem comprometer
o resto de suas vidas como adultos.
— e o terceiro
fator é a perda do direito básico de ser criança, de poder brincar, ter
lazer e esporte, de ter amigos, saúde, alegria, energia, para poder
estudar e ter uma perspectiva de futuro.
Até aqui
estamos olhando sob o ângulo da família pobre que manda os filhos para o
trabalho. Mas há o lado do contratante também, que vê no trabalho infantil
informal uma forma ‘vantajosa’ de ter lucro. Afinal, a mão de obra é barata, a
criança não tem consciência de seus direitos e assim, nem ao menos reclama. Uma
situação confortável para o explorador.
Se tudo isso
ainda não convenceu você de que o trabalho infantil precisa ser
erradicado, pense no círculo vicioso que espirala a vida desses pequenos
para baixo: a criança que trabalha e é explorada, perde sua infância, não
consegue render na escola pela fadiga, as notas caem, ela fica desestimulada,
deixa a escola e, sem instrução, sem ofício, sem futuro, perpetua-se na
miséria, trabalhando por pouco até ficar adulta e formar uma família numerosa
que vai mandar as crianças para o trabalho desde cedo.
Multiplique
essa triste realidade por alguns milhões e me diga se esse é o Brasil que você
sonha para nossas crianças.
Não, o
trabalho infantil não enobrece. Ele empobrece a criança, a família, eu, você, o
Brasil, a vida humana.
O que enobrece
é divulgar a ideia de que o trabalho infantil precisa ser erradicado.
O que enobrece
é acreditar que filho de rico, de pobre, de nobre, todos têm direito à
infância. E permitir que isso lhes seja roubado é ser cúmplice de um crime
contra a humanidade
Do: Promenino

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