25 novembro 2014

Você acha mesmo que ‘o trabalho enobrece’? E por acaso você já viu algum filho de nobre trabalhando?


Por;Rosana Heemann

Olha, vamos falar o que é: você nunca viu uma criança rica trabalhando.  Nem conhece ninguém que virou príncipe quebrando pedra ou cortando cana. 
As crianças ricas que vemos na mídia são filhas de pessoas famosas, em fartas festas de aniversário, com roupas caras, dando e recebendo presentes de grande valor. Nenhuma delas está envolvida com trabalho infantil.
O trabalho infantil, como se sabe, é uma chaga que acomete crianças de famílias de baixa renda. São famílias que vivem mal, comem mal, não têm recursos de saneamento básico, nem acesso à educação, informação, saúde, nada. 
Essas famílias, muitas vezes numerosas, veem em cada filho uma possibilidade de complementar a renda e, assim, crianças e adolescentes  acabam tendo que trabalhar, encaminhadas pelos próprios pais.

A história triste poderia terminar aqui, com a criança trabalhando e ganhando um ‘dinheirinho’ e a gente esquecendo o assunto. Pra aliviar a culpa, a sociedade ainda inventa que ‘o trabalho enobrece’, como se uma criança mirrada, morando em condições miseráveis,  trabalhando desde cedo  fosse virar um príncipe por ser explorada como trabalhador.
Aham, senta lá Cláudia, faz de conta que a gente acredita.
É ÓBVIO que a história não tem final feliz e ainda piora, em pelo menos três grandes aspectos:
— primeiro que as crianças e adolescentes que trabalham quase sempre apresentam problemas sérios de saúde, que vão de fadiga excessiva a problemas respiratórios. Muitas vezes os trabalhos que exigem esforço físico extremo podem prejudicar o crescimento, produzir fraturas, amputações, queimaduras e até causar deformidades. Dados coletados pelo Ministério da Saúde, entre 2009 e julho de 2011, mostram que crianças e adolescentes se acidentam seis vezes mais que adultos em atividades laborais. Sem contar as crianças que morrem por causa do trabalho.
— o segundo fator é o impacto psicológico, que pode afetar a capacidade de aprender, de se relacionar. E ainda há a ocorrência de abusos físicos e emocionais que muitas crianças e adolescentes sofrem em trabalhos como tráfico e exploração sexual, considerados como as piores formas de trabalho infantil, que podem comprometer o resto de suas vidas como adultos.
— e o terceiro fator é a perda do direito básico de ser criança, de poder brincar, ter lazer e esporte, de ter amigos, saúde, alegria,  energia, para poder estudar e ter uma perspectiva de futuro.
Até aqui estamos olhando sob o ângulo da família pobre que manda os filhos para o trabalho. Mas há o lado do contratante também, que vê no trabalho infantil informal uma forma ‘vantajosa’ de ter lucro. Afinal, a mão de obra é barata, a criança não tem consciência de seus direitos e assim, nem ao menos reclama. Uma situação confortável para o explorador.
Se tudo isso ainda não convenceu você de que o trabalho infantil precisa ser erradicado,  pense no círculo vicioso que espirala a vida desses pequenos para baixo: a criança que trabalha e é explorada, perde sua infância, não consegue render na escola pela fadiga, as notas caem, ela fica desestimulada, deixa a escola  e, sem instrução, sem ofício, sem futuro, perpetua-se na miséria, trabalhando por pouco até ficar adulta e formar uma família numerosa que vai mandar as crianças para o trabalho desde cedo.
Multiplique essa triste realidade por alguns milhões e me diga se esse é o Brasil que você sonha para nossas crianças.
Não, o trabalho infantil não enobrece. Ele empobrece a criança, a família, eu, você, o Brasil, a vida humana.
O que enobrece é divulgar a ideia de que o trabalho infantil precisa ser erradicado. 

O que enobrece é acreditar que filho de rico, de pobre, de nobre, todos têm direito à infância. E permitir que isso lhes seja roubado é ser cúmplice de um crime contra a humanidade
Do: Promenino

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